sexta-feira, 22 de agosto de 2014

SETEMBRO_calendário 2014


SETEMBRO

Setembro vem de Septem, que em latim significa "sete". Era, portanto, o sétimo mês do calendário antigo. Parece que temos aqui um falso “sete” que atualmente é “nove”.

No quintal o castanheiro-da-índia, talvez por estar afastado do seu habitat original, é o primeiro a ficar despido de folhagens. O calendário está-lhe na seiva e não falha aos sinais, ainda débeis, dos raios solares novamente em percurso de declive.

As andorinhas começam a ensaiar a longa viagem, estão de abalada para locais mais quentes. Todos os pássaros já procriaram e as suas crias já estão preparadas para enfrentar o futuro.

Comem-se as últimas sardinhas assadas que já cheiram a saudade. À noite o ar com aroma salgado da Costa do Norte rasga os restos de calor e faz-nos sentir falta de um agasalho para aconchegar os corpos que já respiram saudades de se vestir de mar.

É tempo de olhar para o chão. As formigas intensificam a sua azáfama porque o tempo de amealhar urge. Neste hemisfério e nesta latitude aproximam-se tempos de escassez. As formigas combatem a suas vulnerabilidades com sapiência aforradora e constroem palácios subterrâneos. Lutam contra o tempo cumprindo também o seu calendário.

Nesta altura apetece perguntar porque é que o tempo comanda a vida?

 

terça-feira, 22 de julho de 2014

AGOSTO_calendário 2014


AGOSTO

Antes era Sextilis, "o sexto mês". De acordo com o historiador Suetónio, o nome Augustus foi adotado em 27 a.C., em homenagem ao primeiro imperador romano, César Augusto (63 a.C.-14 d.C.). Augusto: Vem do latim Augustus e significa "sublime" ou mesmo "sagrado".

Augusto Agosto repleto de dias grandes em que a luminosidade ferve, transborda e cega, tudo enche e faz estalar de secura.

Os corpos humedecem e esperam que as brisas do fim de tarde temperem a acidez das peles. As sombras são paraísos que acalmam a agrura de estar dentro do corpo. A água salgada espraia-se em labaredas de frescura, tempera o olhar e acalma os incêndios que afligem os corpos refugiados pelos areais.

Durante o dia as palavras escasseiam sobre os sons secos do restolho a voar pelo ar que estremece. Espera-se a hora do poente para que, em contraluz, tudo fique visível em silhuetas negras com fundo vermelho alaranjado.

À noite, no campo, ouvem-se as cigarras em silvos contínuos de aflição a ecoar pela escuridão misturando-se com a bênção das maresias que chegam lentamente da costa marítima. Essas gotículas minúsculas de invisível aroma aveludado que tudo enchem de silêncio para ouvirmos as estrelas sabem que o seu destino as roubou aos mares e as levará para os céus. Dizem muito baixinho, em jeito de promessa, que voltarão daqui a algum tempo.
 
 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

JULHO_calendário 2014


JULHO

Chamava-se Quinctilis e era simplesmente o nome do quinto mês do antigo calendário romano. Até que, em 44 a.C. o Senado romano mudou o nome para Julius, em homenagem a Júlio César. Como todos os homens de poder raramente são realmente importantes vamos reportar-nos à primeira origem numérica do seu nome (ex quinto) e fomos à procura da sua ordem atual, sete.

Parece que o número SETE é sagrado, perfeito e poderoso, atribuindo-se isto tudo a Pitágoras.

Da rápida pesquisa encontrámos muitos “setes” que atestam a magia acumulada pelos tempos.

Começando pela atualidade o jogador número 7, CR, garantiu que, em 2014, Portugal esteja no mundial do Brasil. Acresce que a independência do Brasil também aconteceu num dia sete. A RTP também nasceu no dia 7. Na Grécia havia sete sábios. Também tinham sete virtudes humanas. Há os pecados capitais que são quantificados, de acordo com a igreja Católica, em sete. Também têm em oposição as sete virtudes divinas. Os sacramentos também são sete. Ele é o número da perfeição divina, pois no sétimo dia Deus descansou de todas as suas obras. Entre os judeus a conceção do SETE manifesta-se no candelabro de sete braços (MENORAH). No Egito listaram-se sete pragas. Há expressão popular “fechado a sete chaves” que faz jus a este número. São também sete, as notas da escala diatónica. As cores do arco-íris também são sete. O carnaval ocorre sempre 7 domingos antes do domingo de Páscoa, e são sempre sete os dias de todas as semanas. Na sueca a carta 7 não é padrão como as outras e, no dominó jogamos com sete pedras na mão. A Branca de Neve e os Sete Anões. Diz-se também que o gato tem sete vidas. Há os sete mares. Para além das sete colinas de Roma também se enumeram em sete as colinas de Lisboa. Em 1923, o "Manifesto das Sete Artes", listou, pela primeira vez, o Cinema como a "sétima arte".

Mesmo que a enumeração não dê certo com o sete arranja-se maneira de lá caber o que aspiramos e quando procuramos um número que dê alguma transcendência ao que pretendemos aí vem ele e já está!

Vivemos num mar de símbolos à deriva e tentamos navegar em frotas de analogias, salvadoras bússolas da viagem em que somos estranhos em nós.

As crias das andorinhas ensaiam a liberdade de navegar no ar. Preparam, sem saber, a viagem que em breve as levará para muito longe, para o desconhecido. Cumprirão o seu calendário, guiadas por um faro apuradíssimo.

Certamente não entenderão o fascínio que ao longo dos tempos concentramos no número sete. Nós também não temos outra razão senão a força simbólica que lhe atribuímos. É o nosso refúgio alegórico idêntico ao delas quando regressarem no ano seguinte ao ninho do ano anterior.

Olhei-as contemplando o brilho negro e branco do seu porte esguio fazendo voos rasantes e ameaçadores a quem se aproxima do seu ninho. Será que voltaremos a cruzar os nossos olhares, pensei eu.

- Estaremos de volta, aproximadamente daqui a sete meses. Gazearam-me elas.

sábado, 17 de maio de 2014

JUNHO _Calendário 2014


JUNHO

Os Fastos de Ovídio terminam com as referências às festas religiosas realizadas em Junho, Iunius mensis, dedicada à deusa Juno da mitologia romana e Hera na grega. Em Roma esposa de Júpiter e rainha dos deuses. Ela era a guardiã do casamento e do bem-estar de todas as mulheres.

Mas se o mês anterior poderia ser dedicado aos maiores /Maius (aos mais velhos), nada estranho que o mês de Junho tenha origem de iuniores / Iunius (jovens). Segundo os romanos, o mês de Junho provém de iuvenis - jovem. Outra hipótese refere-se ao verbo iungo (jungo), conjugação latina; juntar, unir, reunir, pois foi neste mês que, depois de muitas guerras, os romanos se juntaram aos sabinos após o rapto das sabinas, unindo-se numa só nação. Nesta aceção, Junho viria do verbo iungere. Homenageava-se também neste mês a deusa romana Vesta de caráter muito arcaico que presidia ao fogo sagrado. Mantinha-o acesso e assim unia a alma da cidade e o ânimo dos romanos.

Seja qual for a origem do nome deste mês, aqui estamos no meio da representação do tempo anual onde, já sem deuses, se esvai a catarse pelo desmoronar da tragédia. Ergue-se o drama do zénite como alvorada de próximo e repetido envelhecer de mais um ano.

O espaço do que passou é igual ao que resta. Por isso, em Junho, é bom prolongar os dias e não perder nenhuma gota das luzes que saciem as flores com as águas perdidas de todas as lágrimas.

A glicínia alastra espalhando gaviões de vida e nos aromas dos seus lilases cachos suspensos saem labaredas de energia que as abelhas recolhem.

- Olha que o teu olhar me faz tão bem, ramalhou efervescente. Fiquei encantada com o seu reconhecimento e agradecida pelo bem-estar que me tem dado.  

Se escutarmos bem todas as plantas e flores imploram a nossa dádiva de água e não temos como negar-lhes o prazer de nos reavivarmos mutuamente entrelaçando assim as nossas efémeras vidas em amadurecimento.
 
 

terça-feira, 6 de maio de 2014

As minhas malvas de estimação


As minhas malvas de estimação
Hoje faz 30 dias que o meu amigo partiu e, por isso, será celebrada cerimónia religiosa.

A última flor que me deu foi uma malva. Levou-ma a última vez que me visitou em Sines. “Ir para as malvas” significa morrer. Olho para ela e recebo sempre de volta o seu perfume cativante e nele está guardado o meu amigo.
Gosta de estar onde a coloquei, num vaso grande, por baixo da magnólia. Dela já reproduzi mais sete e todas vingaram para a vida. Umas estão na Fonte Mouro, perto da Ilha do Pessegueiro, num monte soalheiro no Verão e varrido pelas nortadas marítimas no Inverno. Dali o horizonte é largo e a natureza não é meiga. As outras vieram comigo para Lisboa e aqui me farão companhia, no pequeno jardim aconchegadas pelas ameixoeiras.

São flores corajosas e despretensiosas. Obrigada amigo.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

MAIO_calendário 2014


MAIO

No início do poema dedicado ao Maius, Ovídio apresenta uma discussão sobre o nome do mês, sugerindo várias hipóteses. Na primeira hipótese, o nome do mês poderá estar relacionado com a deusa Maia (pequena mãe), responsável pelo crescimento das plantas, mãe de Mercúrio que era protetor da medicina e das ciências ocultas. Por esse motivo, Maius era chamado "o mês do conhecimento". Outra possibilidade descrita pelo poeta refere-se ao facto de que o mês era também dedicado aos antepassados: aos Maiores, ou seja, aos mais velhos. Havia, neste mês, uma festa dedicada aos que já haviam partido: os Lêmures, almas dos mortos que aguardavam o descanso eterno. Ovídio não toma partido pela origem que poderá ser a mais acertada.

Já nesse tempo, os tempos vão comendo as origens e quem vai chegando acede só ao que resta.

Nesta altura do ano há sempre um lastro de trovas pelos ares. Maius maduro Maius ouve-se em coro rochoso quando ao entardecer se percorre o areal despovoado de S. Torpes ou da Vieirinha. As rochas sabem-no bem porque o seu conhecimento é fruto da experiência das cíclicas vivas marés. Fixas, pesadas e brilhantes quando molhadas respiram passados vulcânicos guardados em relíquias sedimentares que agasalham todos os rugidos da construção do universo em si.

O Mauis está ali nelas, efervescente como a espuma salgada que vai dançando e desfazendo-se e, vem crescendo espraiando-se em abraços de acumulada sabedoria.

Por isso, em Maio, deve ouvir-se à exaustão a densidade das rochas e voltar a ler-se todos os poetas.
 
 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Nesta Primavera o Vitor foi em viagem

Nesta Primavera inesperadamente um amigo partiu crente na viagem da sua alma. Desejo que ela se esteja a concretizar porque quem assim acredita a merece. Por mim quem parte, fica diluído e impresso dentro daqueles com quem criou memórias. Ele ancorava-se numa fé e acreditava em explicações para a nossa existência que estão para além da minha compreensão. Há múltiplas formas de lidar com o mistério da vida porque ele nos ultrapassa a todos, crentes e não crentes. Mas isso pouco importa porque com ele aprendi que, quando há espaço para se partilharem as certezas de cada um, se alimentam e crescem as dúvidas de ambos e são elas, as eternas perguntas, que dão sentido à vida com indagação. Assim, talvez, menos certezas darão mais paz nas probabilidades da inexata humana matemática.

Deliciosa é a diferença que consegue unir.
PS: Achei graça ao modo como esta árvore tem sido podada.  Recorda-me que somos "(...) somos jardineiros e não flores".